Artigo originalmente publicado no Boletim Notac – Notícias do Aeroclube de Campinas – Número 11, sildenafil Edição de maio de 2003.
Como sempre, ampoule a noite cedeu lugar a uma manhã embaçada, com uma camada de estratos baixos. Devido ao Oceano Pacífico, a visão do Sol é raridade em Lima, no Peru. À nossa frente, o velho Beech Queen Air, vermelho e branco, que nos levaria até a cidade de Ica. Eu e um casal de ingleses.
Seria uma operação com um único piloto, com plano de voo instrumentos. Como bom leigo, nem imaginava os riscos e as responsabilidades envolvidas num vôo como aquele. Afinal, só estava ali para chegar até Ica e de lá, tomar outro voo para me deliciar com a vista das famosas Linhas de Nazca.
Já a bordo, posso observar o piloto manusear as manetes, como se fosse uma dança, repetida milhares de vezes, hábil e impecavelmente. Ajusta, em seguida, dois mostradores estranhos, com ponteiros em forma de cruz (que descobriria mais tarde serem os VORs com Glideslope). Logo depois de rodar o Queen Air, estamos guardados, não por muito, no entanto. Em breve, o colchão de estratos é superado, com os dois motores de 540 polegadas a nós jogar para cima a 1200 pés por minuto, rumo ao azul infinito da manhã, emoldurada pela estonteante visão dos Andes, à esquerda. Nivelamos. Noto que estamos a 180 nós. Nada mal para o velho condor peruano.
A visão do campo de Ica, girando base, baixando e travando os trens de pouso, é de tirar o fôlego. Em terra, outra aeronave, agora um Cessna 206, nos espera. Devido ao meu tamanho, sou privilegiado e posso voar de “co-piloto”. Aprendo, entre outros, o que são “cowl flaps”. Mais uns minutos e deixamos o solo poeirento de Ica, rumo às misteriosas Linhas de Nazca, só vistas em sobrevoo. Formam figuras gigantes no deserto, além de linhas dispostas geometricamente em forma de pistas de pouso. Seriam pistas para naves que neste Planeta outrora pousaram, como sugere Erich Von Däniken em seu livro “Eram os Deuses Astronautas?” Com ou sem astronautas, a aventura aérea é contagiante.
De repente, a mente viaja e sou remetido de volta à minha infância. A infância de horas sem fim a “babar” pelos aviões a decolar e pousar no também poeirento Aeroclube de Campinas não pavimentado dos anos setenta. Incontáveis finais-de-semana ali passei. O sonho de voar da idade tenra, o mesmo que havia sido engavetado pela corrente de jato que derivou minha rota de aeronauta para engenheiro, estava ali de novo, à flor da pele. Voltei ao Aeroclube de Campinas. Voei com um jovem piloto, só para confirmar a paixão. Mais uns dias e estava matriculado numa das escolas da cidade. Logo depois, comecei a fazer horas de vôo no Cessna 172 do Aeroclube.
Quase cinco anos se passaram, desde a viagem ao Peru e meu início, de fato, na aviação geral.
Desde então venho tentando, durante a fruição dos voos, entender de onde vem a atração magnética que a aviação exerce sobre nós. Sejam os aviadores de final-de-semana, como eu, sejam os colegas que da arte de voar, ganham o pão de cada dia, sem poder escolher, teto, vento, ou o céu mal encarado, coalhado de CBs.
Seria pelo privilégio de ver tudo de cima, com a paz peculiar que o Planeta se exibe para nós lá em cima? Seria pelo prazer de ver as nuvens de perto? Seria pela audácia de desafiar a gravidade? Seria pelo risco intrínseco que a atividade impinge? Seria pela disciplina, segurança e atenção concentrada que a aviação exige? Seria pela velocidade? Pela liberdade em três eixos? Ou ainda pela interação densa entre o homem e a máquina, com a perfeita coordenação dos cinco sentidos? Ou pela seria pela combinação de tudo isso?
Seja como for, há prazer maior que numa aproximação bem feita, na rampa, estabilizada, com o “climb” parado em 400 fpm , velocímetro “enroscado” em 90 KIAS, com o nariz apontado bem para o “centerline”, sabendo que o vento está de través com 12 nós? Sim, há. Imagine esta mesma aproximação ser enlaçada por um toque liso, daqueles de lamber o asfalto, nos primeiros 300 pés de pista…
Há um dito aeronáutico norte-americano que diz: “Voar é o segundo maior prazer que um homem pode sentir na vida. O primeiro é pousar….” Caso de contaminação completa pelo vírus “aerocócus”! Menos exagerada, e mais realista, tem aquela do meu primeiro instrutor que, antes de voarmos pela primeira vez, profetizou: “Jamais serás o mesmo!”. Tinha razão.






























