De avô para o neto

Nosso amigo Roberto há algum tempo nos enviou mais um de seus criativos contos, ambulance conforme explica a seguir.
Boa leitura!
“Evandro, site bom dia.
Envio a ultima estória da estrada que faz parte da trilogia e também a ultima de 2014.
Grande abraço.
Roberto Dias Alvares.”
DE AVÔ PARA O NETO

Cavalo Mecânico Mercedes Benz LPS 331 6×2
Uma fina e persistente garoa,
cai, deixando o asfalto liso.
Um Mercedes Benz pela pista voa.
Chegar logo ao destino é preciso.
Puxando semi reboque de dois eixos
Tanque de alumínio reluzente.
Encara todos os tipos de trechos.
Transporte de óleo diesel somente.
Rodando veloz como uma bala
O Mercedes, na pista voa baixo
Dirigido por este que vos fala.
Motorista bom e cabra macho.
Parece saído da concessionária
mas com mais de sessenta anos.
Aparência e desenvoltura extraordinária.
Subindo, descendo ou em trechos planos.
Trinta anos, não estou acreditando,
que recebi o bruto de presente.
De meu querido avô lembrando
encarando a estrada, sigo em frente.
Recebi o cavalo de doação.
No início feliz e empolgado.
Ao me deixá-lo, vovô deu-me a missão,
e para cumpri-la continuo empenhado.
As primeiras viagens que fiz
sofri pela minha inexperiência.
Rodando com o bruto feliz
explorando com calma a potência.
Cada curva era um desafio
que vencia com todo cuidado.
Subindo montanha, cruzando rio
fui de Estado em Estado.
Minha filha deu-me um neto
e em minha mente já imagino:
Quando meu ciclo da vida estiver completo
darei o caminhão para este menino.
Sinto já bater o cansaço
em mim e em meu caminhão.
Sei que para o cavalo de aço
Existem peças de reposição.
O meu corpo ressentido
pelo tempo que segue impiedoso.
De nada sinto-me arrependido.
Deus foi para mim generoso.
Existe apenas uma diferença
entre eu e meu caminhão.
O tempo não há quem vença.
Para mim não há peças de reposição.
Quando chegar minha hora
Partirei com a certeza do dever cumprido.
Em um bruto celestial irei embora
e pelo próprio Jesus será dirigido.
Enquanto este dia não chega
Na estrada faço meu trabalho.
Mais uma carga para longe pêga.
Do trecho conheço cada atalho.
Enquanto minha mente divaga
Chuva fina vai molhando o chão.
Com vovô minha dívida está paga,
pois de carreteiro honro a tradição.
Em mês de férias da escola
meu neto viajou comigo.
Não quis ficar jogando bola.
No trecho aventura e perigo.
Era uma viagem rotineira
e ele curioso com tudo.
Como dirigir máquina estradeira?
Não ficava um só minuto mudo.
Com dezesseis anos de idade
Trata-se de um bom menino.
Cresceu valorizando a verdade.
Quer escrever seu próprio destino.
Nesta viagem que fizemos
meu neto, a tudo ouvia atento.
Bons momentos na boleia tivemos.
Aproveitamos cada momento.
Ao levar um carregamento
até uma cidade isolada
disse a meu neto: “Assuma o assento”.
Sua primeira incursão pela estrada.
Ele já dirigira antes
apenas o cavalo desatrelado.
A tensão dele era bastante.
Via-se que estava emocionado.
Com calma trocando marcha.
Visão á frente muito atenta.
Mil e duzentas rotações, na faixa.
Andando na marca dos oitenta.
Após alguns quilômetros rodados
ele já dirigia com toda a calma.
No comando do Mercedes trucado.
Vocação estava em sua alma.
Tinha ciência da responsabilidade
pois a carga era muito perigosa.
Apesar da pouca idade
dirigia de maneira cuidadosa.
No volante, prestando atenção
enquanto eu o aconselho.
Mãos firmes na direção,
ouvindo orientações deste velho.
Eu o ensino a fazer manobra
e ele me acha um mágico.
Esterço e como canivete dobra.
Para mim é muito prático.
Sei que ele aprenderá
pois para dirigir tem o dom.
Na lida da estrada me sucederá
e no volante será muito bom.
Mostro a ele que é importante
cuidar bem do caminhão.
Ser cuidadoso no volante
e não descuidar da manutenção.
Após quinze dias na estrada
retornaríamos para casa.
Uma situação inusitada.
nosso retorno então atrasa.
Meu neto ia na condução
e eu no banco do carona.
Um Scania em rápida evolução
passa em velocidade, detona.
Lá na frente, atravessa
tentando impedir a passagem.
Como sairíamos dessa?
Precisávamos seguir viagem.
Pedi que apertasse o acelerador
e que se parássemos seria o fim.
Fez subir o giro do motor.
Meu neto confiava em mim.
Os criminosos não acreditaram
quando nos viram em rota de colisão.
Para o impacto se prepararam.
A poucos metros segurei a direção.
Virei bruscamente o volante
passando a centímetros do cavalo.
Meu neto reassumiu no mesmo instante.
Na direção conseguiu endireitá-lo.
Com o conjunto em movimento
eu e ele trocamos de lugar.
Tomaria decisão de momento.
Não sei se conseguiríamos escapar.
Nunca andei armado.
Então como me defenderia?
Usaria meu potente trucado
e com ele escaparia.
Scania 111 em nova investida
recompôs-se da ação inesperada.
veio para o ataque decidida.
Tentariam me tirar da estrada.
Com armas de grosso calibre
não iriam desistir facilmente.
Um verdadeiro Deus-nos-livre.
Bandidos vinham com faca nos dentes.
Minha maior preocupação
era meu neto se machucar.
Isso aumentava minha disposição
e eu não deixaria nos pegar.
Com a polícia nenhum contato.
O celular fora da área de ação.
Teria de me virar isso era fato.
Estava difícil nossa situação.
O cavalo a cem por hora.
Muito para o velho estradeiro.
Pé em baixo, a turbina chora.
Bandido faz disparo certeiro.
Tiro atingiu chapa de metal.
Felizmente não houve perfuração.
Caso contrário para nós seria fatal.
Poderia causar grande explosão.
Vi que só teríamos uma saída.
Vendo carro de apoio aos criminosos.
Iniciou-se trecho de leve subida.
Trajeto dos mais perigosos.
O carro em rápida chegada
homens vinham atirando.
A carreta em marcha moderada.
Com rapidez se aproximando.
Enquanto faziam ultrapassagem
atirariam estando lado a lado.
Segurei o bruto, fiz a frenagem.
Escopeta, um tiro disparado.
O bandido errou o tiro
que passou a frente da cabina.
Acelerei o bruto, aumentei o giro.
Fiz chorar á turbina.
A duzentos metros manobrou
para posicionar-se de frente.
Um dos bandidos se preparou.
Com carabina, atiraria na gente.
Enquanto a ação se desenvolvia
tudo isso em questão de minutos.
Atingir o carro eu tentaria.
Os bandidos eram astutos.
O bandido fez o disparo.
Projétil atingiu grade frontal.
Em um resistente anteparo
No bruto não causou nenhum mal.
Quando preparou-se para atirar
estava já do carro bem perto.
Foi o tempo do grupo se dispersar.
O impacto foi no ponto certo.
O carro deu dois rodopios
e contra uma árvore se chocou.
Meu neto quando aquilo viu
levantou o punho e vibrou.
O Scania se aproximando
tentando nos jogar para fora.
O acelerador até o fim apertando.
Meu bruto aos quilômetros devora.
A subida ficou mais acentuada
e logo estaríamos ao alcance.
Difícil a decisão por mim tomada
mas para nós era a única chance,
A cem metros atrás de mim
O cavalo Scania vinha com apetite.
Se nos alcançasse seria nosso fim.
Esse era o meu palpite.
Em atitude desesperada e suprema
desengatei semi reboque de diesel.
Disse a meu neto: “Não tema”.
Perder a carga á vida é preferível.
Meu neto não estava assustado
mantendo a calma e o sangue frio.
O semi reboque desengatado.
Alguns metros ainda subiu.
Atravessou na pista
com vinte mil litros de combustível.
Cena poucas vezes vista.
O desfecho foi terrível.
O semi reboque virou
e pela pista desceu rolando.
O cavalo Scania freou.
Enquanto descia, óleo vazando.
O semi reboque explodiu.
Uma bola de fogo rolando para baixo.
Ao cavalo Scania atingiu.
Meu neto mostrou coragem, foi macho.
O semi reboque e o cavalo
formavam disforme massa.
O fogo ardia a devorá-los.
Subindo, imensa coluna de fumaça.
Com o cavalo desatrelado
andei em boa velocidade.
A beira da pista policial avistado.
Expliquei-lhe toda a verdade.
Avisei a transportadora
que a carga fora perdida.
Escapei de situação perturbadora
mas era a única saída.
Depois dessa aventura
achei que meu neto desistiria.
Respondeu-me àquela altura
que ser carreteiro queria.
Quando retornamos ao lar,
ao ser perguntado da viagem.
Meu neto empolgado a falar
que queria viver na rodagem.
O que está no sangue não se apaga.
Meu avô deve ter vibrado lá do céu.
Depois de mim, no trecho continuaria a saga,
com meu neto também chamado Rafael.

3 ideias sobre “De avô para o neto

  1. Roberto, desculpe-me mas o editor de texto resolveu novamente remover todas as linhas que separavam as estrofes. Tentei corrigir, mas não consegui. Parabéns pelo texto! Um abraço.

  2. Evandro, meus agradecimentos a você pela publicação do texto. Meu intuito sempre foi homenagear esses heróis pioneiros do transporte brasileiro. Sejam Mercedes Benz, Scania, volvo, Fiat, Iveco, Chevrolet ou Ford e isso só é possível graças ao espaço disponibilizado em seu blog.
    Grande abraço meu amigo.

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