Ford 4600

Nosso amigo e colaborador Daniel Shimomoto de Araujo compartilha neste excelente artigo sua vasta experiência com tratores agrícolas, thumb com ênfase nas diversas motorizações disponíveis no Brasil, ao longo dos anos:

Motores diesel em aplicações agrícolas: Compartilhando um pouco de minha vivência

Até bem recentemente, quase todos os tratores vendidos no Brasil eram equipados com motores diesel produzidos por fabricantes independentes. Os fabricantes independentes produzem uma gama de motores e esses motores tem que servir a uma ampla gama de aplicações, sejam elas veiculares, sejam elas agrícolas ou estacionárias.

Por se tratar de um mesmo produto para diferentes aplicações, naturalmente algumas aplicações serão melhores a um determinado motor e outras ficarão prejudicadas, em decorrência do tipo de projeto e uso que será dado.

Na agricultura, os motores diesel necessariamente trabalham em uma rotação mais baixa que em aplicações veiculares em virtude da necessidade de se trabalhar em regimes de potencia máxima em rotações constantes, sofrendo continua variação na sua carga de trabalho. Por isso, praticamente todos os motores agrícolas são limitados abaixo das 2.400 rpms, como forma de garantir uma combinação potencia máxima x durabilidade satisfatória, bem como reduzir a rotação de torque máximo, que em outras palavras, significa aumentar a potencia disponível em rotações mais baixas e assim, gerar o desempenho necessário para o inicio de uma marcha.

Tive a oportunidade de trabalhar com as três principais marcas de motores (Perkins, nos MF, Ford e MWM) além da Navistar (O Maxion S4) e a Genesis inglesa, na linha New Holland/Ford Série 30, assim gostaria de compartilhar a minha percepção deste fascinante tema.

motores ag

Perkins:

Como binômio desempenho x economia para 4 cilindros, eu sou fã da linha Perkins com injeção direta. Os Massey 265/275 e 290 (sendo este ultimo a partir da série 300.000 e “três câmbios” – aliás, a melhor máquina da faixa dos 86cv). O único incomodo são os vazamentos…

Vazamento é algo crônico em Perkins, especialmente pela tampa de válvulas deixando o motor inteirinho lambuzado. E é tirar um vazamento e logo em seguida aparecer outro vazamento.

Outro inconveniente dos Perkins são relacionados a partida a frio, nas versões de injeção indireta (3.152, 4.203, 4.238 e 6.357 mais antigos). Em temperaturas abaixo dos 15ºC, dá trabalho fazê-los pegar. Na região onde moro (Marilia), tem muitas lavouras de café e muitos Massey 235 (3.152) estreitos em operação, com o jocoso apelido de “morceguinho”: Passam a madrugada dependurados no barranco para logo cedo pegarem no tranco!

MWM:

Os MWM, na sua versão seis cilindros são imbatíveis em potência e economia. Os Valmet´s 118/128/138 e 148, juntamente com os 1280/1580 e 1780, fizeram fama por esse binômio desempenho com economia. Devido ao fato de ter camisas úmidas e um virabrequim extremamente resistente, o D-229 também tem um custo de retifica muito baixo se comparado aos demais 6 cilindros, o que o torna um atrativo em qualquer máquina que o utilize como propulsor.

Já os 4 cilindros deixam um pouco a desejar no desempenho, uma vez que eles gostam de rotação e têm o mal hábito de “engolir o ronco” quando exigidos. Certa vez, para melhorar um pouco a potencia dos meus Valmets 785 tracionadores de colheitadeira de arrasto de café, quando mandei fazer a bomba injetora, mandei abrir a rotação (de 2300 rpms para 2800 rpms). Melhorou um pouco, mas longe de ficar “agrícola” de verdade. Isso sem falar que depois das 5 mil horas de uso (3 mil horas se for turbo), todos os MWM 229 assopram bastante pelo respiro do cárter.

Uma aplicação interessante do MWM D-229 são nas esteiras Fiat Allis (atual New Holland) AD-7. Usando a versão de 6 cilindros taxada em 92cv@2000 rpms (15,6 cv/L de potência especifica – ridiculamente baixa) e torque máximo de 35,9kgf.m@1300rpms, conjugado com um conjunto extremamente rústico e tradicional (a AD-7 está há mais de 30 anos de mercado), faz a máquina preferida de muitos operadores de serviços rurais e empresas de terraplanagem, especialmente pelo baixo custo de manutenção e economia.

Atualmente apenas a linha de tratores Agrale utiliza o MWM D-229 (atual Maxxforce 3, 4 e 6) em seus equipamentos. A Valmet manteve apenas o 685, na sua versão aeroportuária.

Ford Diesel e Genesis:

Os motores Ford diesel são um caso a parte: Em sua maioria com um diâmetro/curso incomum de 112 mm x 112 mm, em todas as versões (Ford 3,3L, 4,4L e 6,6L – existiu também uma série mais antiga de D/C de 112 mm x 107 mm – os Ford’s 3,1L e 4,2L mais antigos) bebem um diesel que chega a dar medo de ver. Em contrapartida, oferecem uma potência em amplas faixas de rotações acima da média. A durabilidade deles era bem boa, tive alguns que trabalharam 10 mil horas antes de começarem a bater. E a disponibilidade de peças era grande devido ao fato de serem os mesmos motores da série 600 e 610, de longa historia no mercado.

Saiu uma leva de Ford´s F-4000 e Ford Cargo com motor Ford diesel (conhecidos por alguns como FTO-4.4, 6.6 e 7.8L). Não posso falar sobre os caminhões Cargo, mas a F-4000 com motor Ford não é bem vista pelo mercado, em decorrência do elevado consumo de combustível para um desempenho semelhante. Vale a lembrança que nestes casos, foram motores agrícolas que foram vertidos para veiculares, em um processo inverso ao observado nos casos anteriores.

Os Genesis eram uma evolução da linha Ford diesel e equipou a Série 30 (chamada de Superforça): Aperfeiçoaram os motores Ford e em alguns casos (no 6630/7630 e 8030) aumentaram o curso dos pistões numa relação de D/C de 112 mm x 127 mm, ficando em 5,0L (4 cilindros) e 7,5L (6 cilindros). Tinham um desempenho mais diferenciado ainda, mas o consumo em contrapartida…dava mais medo ainda de ver. O desempenho dos 7630 era tão bom que mesmo tendo 105cv, alguns insistem em dizer que o 7630 tem 115cv, tamanha era a força da máquina. Já ouvi relatos de 7630 com mais de 14 mil horas de uso com motorização original, mas não posso comprovar. 11 mil horas eu não só ja vi como tive um 4630 3 cilindros trabalhou todo esse tempo.

O inconveniente desses motores Gênesis era disponibilidade de peças: Só existe kit originais nas revendas New Holland (e que custam caríssimo). Nada de K&S, Mahle, Metal Leve, e outros, diferentemente da série Ford diesel que você pode escolher a marca que bem entender.

MWM International – versão do Maxion S4:

Outra experiência foi com o trator MF 275 da ultima série com motor International MWM MS4.1A (ou A4.1), que nada mais é que o Maxion S4 agrícola. Em minha humilde opinião, embora com bastante potência numa ampla gama de rotações, o A4.1 bebia em demasia, 20% a mais que o MWM D-229 num mesmo serviço (9,5L contra 8L do D-229).

Mercedes-Benz OM-352/366

Apesar de nunca ter possuído uma máquina com motores Mercedes, já tive bastante contato com elas, uma vez que os famosíssimos CBT’s 1105 e 2105 utilizam a motorização Mercedes. As esteiras Komatsu D50 também vieram com o OM-352 e as colheitadeiras SLC dos anos 80 e 90 (atualmente John Deere) saíram, algumas com motores OM-352 e outras mais recentes, com o OM-366.

O motor Mercedes em tratores é, de longe, a adaptação mais gritante de um motor exclusivamente veicular para aplicação agrícola: Enquanto todos os outros motores citados no texto são estruturais (podem ser integrados a estrutura do trator) o Mercedes requer fixação no chassis, num claro projeto veicular adaptado para uso agrícola.

O mercado em geral, bem como os operadores gostam e muito do motor Mercedes, exatamente pela sua grande popularidade, facilidade de repotenciamento (turbinar) bem como economia de combustível. Há quem diga que as colheitadeiras SLC quando turbinadas, consomem menos diesel e apresentam um rendimento superior que suas similares com motor de aspiração natural.

O futuro:

Atualmente os principais fabricantes de tratores do mundo estão utilizando motores próprios. A Massey Ferguson no Brasil está com uma linha nova de motores Perkins, a Valtra utilizando os motores da AGCO denominado Sisu e a New Holland, com motores próprios (abandonou os Genesis na Série 30, os MWM D-229 nos TL’s e os IVECO).

A Navistar/International está trabalhando num motor denominado Maxxforce 3.1A/4.2A e 6.3A de 3,4 e 6 cilindros respectivamente, com base no Maxxforce 4.1A (ou MS4.1, Maxion S4 mesmo). Segundo o catálogo, vai ter desempenho superior e emissões controladas via catalizador e sistema EGR.  Vamos ver no que vai resultar e quem vai usar essa nova geração de motores.

Daniel Shimomoto de Araujo.

 

Nota do Editor: Nem todos os motores ilustrados são da versão agrícola.
O envolvimento da Ford com tratores agrícolas remonta os seus primeiros anos de existência, pills quando Henry Ford construiu seu Arado Automóvel (“Automobile Plow”), usando a mecânica de um automóvel Modelo B, de 1905, cujo motor de 283 pol.³, ou 4,6 litros, entregava 20 cv de potência. Ford havia crescido numa fazenda e o maquinário agrícola fazia parte de sua essência.

Ao longo das décadas seguintes, uma variedade de modelos foi sendo introduzida no mercado, incluindo tratores célebres como o 2N, o 8N e o 9N, dos anos trinta e quarenta, sem falar nos modelos Fordson, fabricados na Inglaterra, entre 1916 e 1964.

Para aperfeiçoar sua tecnologia e principalmente se beneficiar do recém-criado engate três pontos de acionamento hidráulico, Henry Ford estabeleceu uma parceria com o engenheiro e inventor irlandês Harry Ferguson (sim, o mesmo da célebre Massey-Ferguson), em 1938 e que duraria até 1947.

No Brasil, a Ford também teve a distinção de fabricar o primeiro trator agrícola nacional (fato contestado por alguns), o Ford 8BR, com motor Perkins de 55 cv, lançado com  grande fanfarra em fins de 1960 e produzido até 1965, quando os tratores da marca voltaram a ser importados.

A fabricação local voltaria somente em 1976. Nos anos oitenta, a linha incluía modelos como este popular Ford 4600, tema de nosso post de hoje. O trator vinha equipado com motor Ford OHV 3201, de 63 cv, transmissão de 8 marchas, sistema hidráulico Cat. I e II, com capacidade para 1.150 kg de levantamento.

A New Holland, que havia sido absorvida pela Ford em 1986, para formar a Ford New Holland, foi vendida para  o Grupo Fiat em 1992. Com isso, a produção de tratores agrícolas e motores diesel na fábrica de São Bernardo do Campo foi encerrada, assim como a história dos tratores Ford.

Para enriquecer este post, nosso amigo leitor e colaborador Daniel Shimomoto de Araujo acrescenta valiosas informações sobre os motores Ford e demais engenhos agrícolas em seu artigo postado anteriormente (e que poderá ser encontrado a qualquer tempo neste link:

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9 ideias sobre “Ford 4600

  1. Evandro;

    Está ai uma máquina boa. Multiuso.

    Puxava grades leves, arados (como o da foto – numa época que aragem era sinónimo de preparo de terra – hoje em dia não se usa mais) e alguns até arriscavam colocar uma plaininha dianteira.

    Hoje muitos estão com rodagem alta e estreita para arrasto de pulverizadores de barra e outros, para pequenos serviços de fazenda (arrasto de implementos leves, roçadeiras, etc.)

    Abraços

    • Daniel, bom dia! Do mesmo modo, sempre tivemos boas referências sobre o Ford 4600. Grato por acrescentar estas informações. Evandro.

  2. Boa Tarde,Meu Avô Sr. Nelso Favretto ,meu Pai Sr. Alexandre Menin e eu Alexandre Menin Junior, possuímos dois tratores e um caminhões da marca Ford modelos:4600 ano 1978,6600 ano 1980 e F-14000 ano 1987 toco,ambos comprados novos,com os quais trabalhamos em 50 alqueires na região sudoeste do Paraná,cidade de Clevelândia ,e tenho orgulho em dizer:Ford é Ford,Raça Forte.
    também gostaria de pedir,se puder colocar o post do trator Ford 6600,pois nós possuímos um,mas eu não sei nada a respeito de potência,motor….. e se vos interessa,eu possuo alguns folders de tratores da linha New Holland Tl e 30.
    grato,Alexandre.

    • Caro Alexandre, que belo depoimento! Vamos postar o Ford 6600 conforme seu pedido. Aguarde. Temos muito interesse nos folders que você nos oferece. Pode enviá-los para caminhao.brasil@hotmail.com

      Muito obrigado pela visita e pelos comentários.

      Abraço.

    • Cara Aline, fica aqui registrada a sua solicitação. Este nós não temos em nosso acervo. Boa sorte.

  3. Comprei um trator Ford 4600 recentemente; meu primeiro trator, vou colocar uma roçadeira nele para fazer serviços no campo e na cidade. Pretendo ainda colocar uma grade aradora de 12 discos e um niveladora de 24 para diversificar os serviços.
    Estou muito entusiasmado com o Fordinho 4600 estou praticamente restaurando ele. Gostaria de compartilhar com vocês o manuel dele, que eu encontrei nas profundezas do google rsrsrs… em vista que este manual foi pedido num post anteriormente.
    Caso tiverem o catalogo de peças dele, bem como outras informações gostaria de ter acesso.
    Estarei enviando o manual no e-mail do site.
    Detalhe eu imprimi o catálogo acima em papel fotográfico e o encadernei como capa junto ao manual ficou top.
    Obrigado galera.

    • Olá, Fabiano, obrigado por seu interessante relato e pela ajuda. Aguardamos sua colaboração. Parabéns pelo 4600. Abraço.

    • Bom dia, gostaria de agradecer a postagem do Fabiano Marreiros, está sendo muito útil este manual.

      obrigada, Abraço!

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