Meu Avô Caminhoneiro

Como tem feito ultimamente, illness drugstore nosso amigo Roberto Dias Alvares nos enviou há algumas semanas mais uma de suas bonitas crônicas de estrada, case formatadas como poesia. As seguintes palavras acompanhavam o texto:

“Evandro, boa tarde.
Esta estória que envio faz parte de uma trilogia.
Cada uma delas tem seu final, mas estão interligadas em uma sequência.
Está é a primeira delas. Espero que aprecie.
Grande abraço.
Roberto Dias Alvares”

Eis a estória:

MEU AVÔ CAMINHONEIRO

Cavalo Mecânico Mercedes Benz LPS 331 6×2
Autor: Roberto Dias Alvares

Um jovem de nome Rafael
no campo mostrava seu valor.
Desempenhava seu papel.
Era filho de um agricultor.

Família unida no trabalho e na fé.
Sem parar, trabalhava insistente.
Sua lida era na cultura do café.
Rafael tinha outra coisa em mente.

Quando chegavam caminhões
para do café fazer transporte.
Entre todas as profissões,
de caminhoneiro batia mais forte.

Quando fez dezoito anos completos
Recebia do pai dinheiro da colheita.
Dos sonhos, aquele mais concreto,
vida estradeira, aquela por ele aceita.

Sonhava entre quatro paredes,
com GMC, FNM, Ford, Chevrolet Brasil.
De todos, encantara-se com Mercedes,
quando cavalo mecânico ele viu.

Pensava: “Um dia este lugar eu deixo”.
Neste momento ouviu a aproximação
cavalo mecânico com terceiro eixo.
Encantou-se por aquele caminhão.

Enquanto ajudava a carregar
aquela carreta colossal.
Ao motorista pôs-se a perguntar
sobre aquele caminhão sem igual.

Mercedes LPS 331 era o emblema
que fazia do bruto a identificação.
Segundo o dono, nunca dera problema.
Era um belo e vigoroso caminhão.

Quando viu o bruto indo embora
jurou que compraria seu caminhão.
Sabia que chegaria a sua hora
de conhecer o Brasil e cortar o sertão.

Passaram-se seis anos,
Rafael guardando seu dinheiro.
caminhão estava nos seus planos.
Pensava nisso o tempo inteiro.

Certo dia aquele rapaz
viu retornar á propriedade
aquele caminhão de seis anos atrás
que continuava bonito de verdade.

Perguntou ao homem se vendia
seu belo e potente caminhão.
Respondeu que vender aceitaria.
Mas queria todo dinheiro na mão.

Foram até a pequena cidade
para sacramentar o negócio.
Viveu tantos anos sem vaidade
para comprar o bruto sem sócio.

O dono, homem sincero e franco
usando de toda a coerência,
ao pegar o dinheiro no banco
fez do caminhão a transferência.

Com honestidade que lhe compete,
aquele senhor tendo por nome André,
acompanhou-o na entrega do frete.
A carreta carregada com sacas de café.

Enquanto Rafael dirigia,
senhor André pôs-se a explicar,
como ao caminhão conduzia
e as marchas como trocar.

Quando retornou ao sítio
já dirigia com desenvoltura.
Teria como princípio
na estrada não fazer loucura.

Seu pai torceu o nariz
e sua mãe ficou preocupada.
Mas vendo o quanto estava feliz
nenhum dos dois lhes disse nada.

Os sitiantes de toda a região
contratavam o seu serviço.
Levava de tudo no caminhão.
Era feliz pois sonhara com isso.

Tirou a sua habilitação
e assim ficou mais tranquilo.
Com prazer dirigia o caminhão.
Nascera para fazer aquilo.

Trabalhava semana após semana.
Enfrentando sol, calor e poeira.
Quando conheceu a jovem Ana
sabia que seria a única e a primeira.

Com ela, Rafael se casou.
Foram felizes lado a lado.
No trecho ele continuou,
dirigindo seu cavalo trucado.

Foram tantos anos de trabalho.
Muitas lutas e poucas conquistas.
No caráter jamais teve um ato falho.
Era amigo de todos os frentistas.

Troca de óleo e a revisão
para Rafael era sagrado.
Confiava em seu caminhão
tendo por ele todo cuidado.

Em cada retorno ao lar
a esposa esperava um filho.
Mais e mais tinha que viajar.
Partia tendo no olhar um brilho.

Novas marcas de caminhões
com ele dividiam a estrada.
No trecho eram tantas emoções
que ele não trocava por nada.

O tempo passou, filhos criados
chegou também a velhice.
Nas viagens sentia-se cansado.
“Hora de parar”, sua esposa disse.

Ele estava reticente
em parar de dirigir caminhão.
Mas sua esposa ficou doente
e isso precipitou sua decisão.

Senhora Ana sofria de demência
e precisava de total atenção.
Rafael teve enfim ciência:
Nunca mais dirigiria seu caminhão.

Tinha vários netos e uma neta
mas só um deles o visitava.
Sua tristeza não era completa.
Sobre a vida na estrada perguntava.

Ao neto Rafael contava histórias
na varanda deitado em uma das redes.
Na estrada, momentos de glórias.
Falava com orgulho de seu Mercedes.

Depois que a esposa ficara doente
aos filhos disse ter vendido o caminhão.
Na realidade, Rafael somente
o escondeu dentro de um galpão.

Quando Dona Ana partiu
Senhor Rafael ficou entristecido.
Seu juízo também sumiu.
Vivia com seu olhar perdido.

De seus bens fizera a doação
mantendo sua casa em usufruto.
Seu neto lhe perguntava do caminhão,
mas já não lembrava mais de seu bruto.

Quando Rafael foi para DEUS
ninguém mexeu na casa ou no galpão.
Reuniram-se os filhos seus
para de seus bens fazer distribuição.

Quando foi lido o documento
havia uma carta para aquele seu neto.
Terminou de ler e no mesmo momento
correu ao galpão, de alegria repleto.

Mil novecentos e oitenta e três,
Senhor Rafael, de DEUS na glória.
O que seu neto viu e depois fez
será contado em outra história.

2 ideias sobre “Meu Avô Caminhoneiro

  1. Evandro, obrigado pela postagem.
    Espero com minhas estórias estar contribuindo para enaltecer a memória destes grandes guerreiros que construíram a história deste imenso Brasil.
    Grande abraço
    Roberto

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