Minha História – Mercedes-Benz LPS-331 6×2

Nosso amigo Roberto Dias Alvares nos fez a gentileza de enviar mais um de seus bonitos textos, discount conforme reproduzimos a seguir:
“Evandro, there boa tarde.
Está é a segunda estória da trilogia que começou com “Meu Avô Caminhoneiro”.
Sei que você anda bastante atarefado por isso quando for possível sei que publicará.
Grato.”
           “MINHA HISTÓRIA
MERCEDES BENZ LPS 331. 6×2
Início da década de oitenta
completei dezoito anos.
De sonhos a vida se alimenta.
A cabeça estava cheia de planos.
Futebol gostava de jogar.
Era uma deliciosa diversão.
Mas eu não parava de pensar
em ter a carteira de habilitação.
Trabalhando como bancário,
carro era o sonho de consumo.
Guardava o meu salário,
procurando na vida dar um rumo.
Meu avô fora caminhoneiro
Meu pai não seguiu a profissão.
Trabalhava como ferreiro,
para família, a melhor decisão.
De vovô ouvia histórias,
contadas com emoção.
Falava de seus momentos de glórias
mas eu nunca o vira com caminhão.
Consegui o que queria
Chegara enfim minha vez.
Comprei uma Brasília
Mil novecentos e setenta e seis.
Senti-me livre finalmente.
Rodava feliz pra todo lugar.
Com alguns amigos somente
saia para ás meninas paquerar.
As meninas eu paquerava.
Levando a vida na boa.
Mas também trabalhava.
Nunca estava a toa.
Assim levava a vida.
Trabalhando e na diversão.
Faculdade, etapa vencida.
Tinha de escolher a profissão.
Educação Física, formado,
mas fui trabalhar como bancário.
Senti-me bem empolgado
batalhando no trabalho diário.
A vida é cheia de surpresas.
Vovô desta vida partiu.
Deixando em nós tristezas.
A família toda sentiu.
Vovô deixou a estrada
quando vovó adoeceu.
A ela foi a pessoa mais dedicada.
60 anos, a seu lado permaneceu.
Vovó deixou esta vida
sabendo que era muito amada.
Vovô sozinho sem saída
ainda sonhava com a estrada.
Após tanta dedicação,
Vovô não foi mais o mesmo.
Falava-me de seu caminhão,
mas sua mente vivia a esmo.
Antes de seu falecimento
Vovô fez dos bens doação.
Mais prático que o testamento.
achou que era a melhor solução.
Na casa de vovô existia
um imenso galpão.
O que lá dentro havia
não tinha a menor noção.
Quando fizeram a leitura
dos bens de vovô, a divisão.
Surpreendi-me aquela altura
Havia algo pra mim no galpão.
Uma carta por ele escrita
endereçada para mim.
A caligrafia era bonita,
e dizia mais ou menos assim:
“O que está no galpão
será de sua responsabilidade”.
“Coloque-o de novo em ação,
e será feliz de verdade”.
Senti naquela hora
uma grande necessidade
de ir correndo lá para fora
matar minha curiosidade.
Entrei na casa que vovô vivia,
e peguei uma chave pendurada.
Era ela que cadeado abriria
e que mantinha a porta trancada.
Fui rapidamente ao galpão,
cheguei da porta bem perto.
Sem conseguir conter a emoção,
em segundos estava aberto.
Haviam peças e alguns pneus.
Ferramentas por todo o lado.
Objetos que eram seus,
algo grande coberto por encerado.
Aproximei-me emocionado,
e quando estava bem perto,
puxei com força o encerado
e o segredo foi descoberto.
Quando enfim o descobri
disparou meu coração.
a anos estava parado ali
antigo e imponente caminhão.
Caminhão imenso e titânico
sobre cavaletes colocado.
Belo cavalo mecânico
cabine leito e trucado.
Contornei-o por completo,
cada detalhe observando.
Do vovô presente para seu neto.
De alegria estava chorando.
Estava muito bem conservado
mas precisava de reparo.
Motor deveria ser consertado.
e isso ficaria bem caro.
Também a lataria
precisaria de pintura,
Uma boa funilaria
seria ideal aquela altura.
O leitor deve estar curioso
para saber que marca era.
Mercedes Benz, poderoso
LPS trezentos e trinta e um a fera.
Com a família em reunião
contei o que vovô deixara pra mim.
Disse que reformaria o caminhão
e seria um caminhoneiro enfim.
Disseram-me que seria loucura.
No transporte, total inexperiência.
Mas estava decidido aquela altura,
e das dificuldades tinha ciência.
A primeira dificuldade:
Dinheiro para a reforma.
Dando aula na faculdade
para conseguir era a forma.
Para oficina especializada
o caminhão foi levado.
A cabine seria pintada
e o motor retificado.
Enquanto era reformado
eu fazia teste de direção.
Afinal precisava ser habilitado
para dirigir meu caminhão.
Trabalhando duro de verdade,
ia lenta a restauração.
Só usaria a preciosidade
em perfeita condição.
Conversava com caminhoneiros
sobre a vida na estrada.
Eram heróis brasileiros,
que enfrentavam qualquer parada.
Vendi a minha Brasília,
para concluir o projeto.
Vovô se orgulharia
do que fazia seu neto.
Após dois anos de espera
sobre o trecho, bem informado.
Solteiro, ainda na paquera,
Chegou o dia tão esperado.
A carteira de motorista
era D a categoria.
Habilitado para ir a pista.
e no asfalto me realizaria.
Cheguei á oficina
o bruto bem equipado.
Ainda hoje ao lembrar, me fascina.
Quando dirigi meu trucado.
Grade da Bepo, escapamentos verticais.
Motor rebaixado, cabine levantada.
Na cabine uma escada cromada atrás.
As rodas, linda pintura cor prateada.
O dinheiro mudava de nome
Cruzeiro, cruzado e cruzado novo.
Trabalhava muito mas não passava fome.
A inflação corroía dinheiro do povo.
Minha família já nem lembrava
que eu queria ser caminhoneiro.
Eu também não comentava,
para não causar entrevero.
Fiz minha primeira viagem
com um reboque emprestado.
Para São Paulo com a cara e a coragem
parti de café bem carregado.
Quando fazia uma parada
ficava muito desconfiado.
Queria estar só na estrada.
dirigindo meu cavalo trucado.
O engate tinha a manha,
usando o tempo do motor.
Ainda hoje não arranha
controlava bem no acelerador.
Levantava bem cedo
dirigindo com cautela.
Conduzia na ponta do dedo,
como se fosse mulher bela.
Chegando aquela cidade imensa.
Estradas para todo lado, em profusão.
Ponto de chapa entrei pedindo licença.
precisava para chegar de informação.
Um homem já idoso
mais de sessenta anos tinha.
Ainda era vigoroso,
em minha direção vinha.
Ofereceu seus serviços.
São Paulo, era como a palma da mão.
Tinha de cumprir meus compromissos.
Ele apontou-me a direção.
Levou-me ao local exato
onde deveria descarregar.
Caminho complicado de fato
Sozinho, difícil seria chegar.
Recebi primeiro pagamento,
e já havia outro frete acertado.
Para Belo Horizonte, um alento,
Á saída da cidade fui levado.
O chapa deu-me informações
sobre os locais de entregas.
Assim teria no futuro condições
de me localizar não estando as cegas.
Ao chapa o pagamento fiz,
seguindo para capital mineira.
Dirigia pela rodovia feliz
levando carga de madeira.
Na fila do telefone
ligar para a casa de meus pais.
Quando escutava meu nome
mamãe sentia o coração em paz.
Saí com sol batendo na fronte
cheguei ao anoitecer.
Na capital Belo Horizonte,
Parei no posto pra abastecer.
Tomei um banho, jantei
com caminhoneiros fiz amizade.
No sofá-cama descansei.
Procurar local da entrega na cidade.
Pedindo a alguns informação,
cheguei a indústria moveleira.
Lá descarreguei o caminhão,
deixando a carga de madeira.
Camas, mesas e estantes
carreguei para o transporte.
Para Brasília em instantes
ia um caminhão de grande porte.
Quando cheguei lá,
da estrada, sentia-me um veterano.
Peguei carga para o Paraná,
e lá cheguei sem nenhum dano.
Após matar a saudade
a estrada estava chamando.
Logo já deixava a cidade.
No asfalto, meu bruto reinando.
Fui para a estrada na labuta
deixei pra trás minha casa.
Levando banana, nobre fruta,
para São Paulo no CEASA.
Conseguia ganhar dinheiro
mas o trabalho era puxado.
Por este chão brasileiro,
conduzindo meu trucado.
Meu semi reboque consegui.
Comprei pagando a prestação.
Com ele atrelado no bruto parti.
Eu era meu próprio patrão.
Dividindo da estrada o espaço,
Scania, Volvo, FIAT, GMC e outros mais.
Meu potente cavalo de aço,
Se sobressaía entre os demais.
Sentia-me orgulhoso
vendo o bruto ser admirado.
Conduzia o caminhão poderoso
quilômetro após quilômetro rodado.
Cada volta para casa
era motivo de alegria.
No trecho mandando brasa.
Na estrada, feliz me sentia.
Na política uma confusão.
Bagunçada a economia.
Rodando por este chão.
O povo é que sofria.
Em um retorno para o lar,
reencontrei colega de escola.
Uma beleza pra se admirar,
mas ela nunca me deu bola.
Naquele encontro porém,
por ela um doce sentimento.
Percebi que ela também,
E isso deu-me grande alento.
Começamos a namorar.
conheci a família dela.
Fui com sua mãe conversar.
Situação difícil aquela.
Pela estrada eu ia
trabalhando sem cessar.
A volta motivo de alegria
Para ela eu reencontrar.
Viajarmos os dois não podíamos.
Somente depois de casar.
Cada vez mais nos entendíamos.
e queríamos juntos sempre ficar.
Ela era uma mulher culta,
bonita sensível e inteligente.
Na estrada, levar multa
não me deixava contente.
Policiais queriam propina
Isso me causava revolta.
Pensava na linda menina
e apressava minha volta.
Trabalhando ano após ano
comprei casa pra casar.
Meu Mercedes Benz, soberano
Muitas toneladas a carregar.
Após meu casamento,
sonho enfim realizado.
Na pista de rolamento
continuo com meu trucado.
Não descuido da manutenção.
Com ele tenho todo cuidado.
Afinal ganho a vida no caminhão
A cada quilômetro rodado.
Cinquenta anos completados
já nos dias atuais.
Com tantos quilômetros rodados
Meu caminhão ainda quer mais.
Com ele ganho meu pão.
e na estrada tiro o sustento.
Meu Mercedes Benz em ação,
dirigí-lo eu ainda aguento.
Da família no aconchego
o caminhão já faz parte.
A qualquer lugar que com ele chego,
é admirado como uma obra de arte.
O que meu avô fez para mim
eu farei para algum neto.
E quando eu partir, enfim,
caminhão ficará como sinal de afeto.”
Roberto Dias Alvares.

4 ideias sobre “Minha História – Mercedes-Benz LPS-331 6×2

  1. Caro Roberto, parabéns por mais um texto tão interessante! Infelizmente o nosso editor de texto está juntando todas as estrofes, mesmo após insistentes tentativas de corrigir o problema. Vamos continuar tentando. Um abraço.

  2. Evandro, obrigado pela publicação de mais um texto.
    Sei o quanto esse blog é prestigiado e isso acaba dando visibilidade ao meu trabalho.
    Quero ver se consigo enviar ainda este ano a terceira estória para fechar a trilogia.
    Tenho visto os demais linha do blog e é muito gostoso ver imagens de caminhões e tratores do passado divulgados como se ainda fossem produzidos.
    Gostaria de saber como vai o andamento da publicação de seu livro.
    Imagino as dificuldades que você tem enfrentado mas, se Deus quiser você terá sucesso na publicação desta verdadeira Bíblia do caminhão.
    Grande abraço.

    • Caro Roberto, obrigado pelas palavras. Faço votos de que alguém descubra seu talento e o valorize como merece.

      Quanto ao livro, tivemos duas desistências de investidores. Nós não desistimos. Acreditamos que no momento certo o apoio financeiro virá, nem que seja apenas para a versão e-Book.

      Um abraço.

  3. Amigo Evandro. Mesmo que não seja possível ajustar as estrofes o importante é a publicação.
    Grato mais uma vez e espero ainda antes e acabar o ano enviar a ultimam parte da trilogia.

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